quarta-feira, 16 de maio de 2018

Quando aqui não estás...



Quando aqui não estás

o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar

continua fechada só nos sonhos

me ergo

abro-a

deixo a frescura e a força da manhã

escorrem pelos dedos prisioneiros

da tristeza

acordo

para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido

além

rasando o sal da imensa ausência

uma voz

quero morrer

com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado

perscruta esse coração

esse

solitário caçador


Al Berto

terça-feira, 1 de maio de 2018

Amar Pelos Dois


Amar Pelos Dois
Salvador Sobral
  
Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Ecos de Apolo



“Salvatore Quasimodo, de uma forma que diria profética, transcendente, e de uma simplicidade mundana, referiu certo dia que:  “A poesia é a revelação de um sentimento, que o poeta acredita que é pessoal e interior e que o leitor reconhece como verdadeiro.” Depreendemos deste aforismo que esta “ponte” comunicacional só se efectiva se tocarmos o outro, na mesma medida em que as palavras que escrevemos nos “desestabilizam”.

    As palavras só nos transformam se tiverem “eco”. Almejamos a purificação e a libertação divina de Apolo, qual flecha que nos trespassa e, pela luz, vislumbramos a remissão dos nossos medos e anseios. É quando voamos mais alto na poesia que evocamos o amor, distanciamo-nos deste manto egóico, doando-nos nessa doce antítese, enquanto um corvo, ao som de uma lira, numa récita poética, nos leva a dor pela mão de Apolo. A poesia é isto mesmo, é o resgate da alma. É a ausência de nós mesmos. É tudo aquilo que não faz sentido, nem se explica pela razão.

    Esta obra não estaria a ter “eco” em vós, leitores, se não legitimasse a “voz” de Apolo, através da voz dos nossos autores. Tal como o leitor se permite navegar à medida dos seus sonhos, também a cada um dos poetas e poetisas desta colectânea foi pedido que sonhasse e fizesse sonhar. Sem a poesia que nos desassossegue, jamais seríamos memória, muito menos presente. A força da poesia é imensurável e tem na metáfora, por vezes, a intemporalidade dos génios. Nas palavras de Eugénio de Andrade, “basta um grão de poesia para perfurar todo um século.”

José Guerra, in Prefácio “Ecos de Apolo”