segunda-feira, 16 de abril de 2018

Ecos de Apolo



“Salvatore Quasimodo, de uma forma que diria profética, transcendente, e de uma simplicidade mundana, referiu certo dia que:  “A poesia é a revelação de um sentimento, que o poeta acredita que é pessoal e interior e que o leitor reconhece como verdadeiro.” Depreendemos deste aforismo que esta “ponte” comunicacional só se efectiva se tocarmos o outro, na mesma medida em que as palavras que escrevemos nos “desestabilizam”.

    As palavras só nos transformam se tiverem “eco”. Almejamos a purificação e a libertação divina de Apolo, qual flecha que nos trespassa e, pela luz, vislumbramos a remissão dos nossos medos e anseios. É quando voamos mais alto na poesia que evocamos o amor, distanciamo-nos deste manto egóico, doando-nos nessa doce antítese, enquanto um corvo, ao som de uma lira, numa récita poética, nos leva a dor pela mão de Apolo. A poesia é isto mesmo, é o resgate da alma. É a ausência de nós mesmos. É tudo aquilo que não faz sentido, nem se explica pela razão.

    Esta obra não estaria a ter “eco” em vós, leitores, se não legitimasse a “voz” de Apolo, através da voz dos nossos autores. Tal como o leitor se permite navegar à medida dos seus sonhos, também a cada um dos poetas e poetisas desta colectânea foi pedido que sonhasse e fizesse sonhar. Sem a poesia que nos desassossegue, jamais seríamos memória, muito menos presente. A força da poesia é imensurável e tem na metáfora, por vezes, a intemporalidade dos génios. Nas palavras de Eugénio de Andrade, “basta um grão de poesia para perfurar todo um século.”

José Guerra, in Prefácio “Ecos de Apolo”