segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Tempo para Dar

A sociedade contemporânea alterou-se profundamente. Hoje em dia somos movidos por valores que roçam muitas das vezes a imoralidade e a falta de escrúpulos. A frieza, o egocentrismo e a indiferença perante o outro são apanágios da civilização que criámos. Não generalizando, a insensibilidade e o desdém para com a pobreza, para com a miséria e o insucesso, são cultivados e incutidos desde a mais tenra idade. A sociedade de consumo e o sistema capitalista corrompe as pessoas e torna-as autómatas, indiferentes e insensíveis. A cerebralidade impera de forma patológica, distorcendo a realidade psicoticamente e ameaçando de extinção a emoção e a compaixão humana.

As pessoas hoje em dia apenas valem, se servem os interesses de alguém ou da sociedade. Não passamos de um número com um prazo de validade cada vez mais curto. O desprezo e a indiferença com que lidamos com o outro ao longo da vida, reflecte-se mais tarde na senioridade quando somos relegados para uma cama de asilo, deixados ao sabor da senilidade ou simplesmente abandonados na mais absoluta solidão.

É nas grandes cidades que o problema se agudiza. Na imensa “selva de pedra”, “jazem” literalmente inúmeras pessoas absolutamente sós que mais não têm senão, por vezes, a companhia de um pequeno animal. Somos apanhados na curva da solidão, por um motivo ou por outro, cada vez mais cedo.

Parte dos quadros demenciais e depressivos, inclusive o suicídio, poderiam ser evitados, caso houvesse maior calor humano e proximidade na relação na relação com o outro. Porquê não tornar o resto dos nossos dias um pouco mais felizes fornecendo um pouco de calor humano a quem tanto precisa? Será que custa assim tanto ouvir as pessoas? Tudo isto me aflige e me preocupa pelo rumo que as coisas levam.

Se um animal dito irracional sofre com a ausência do dono, o que dizer de quem foi abandonado pela família e expurgado pela sociedade, sobrevivendo em condições sub – humanas, cujos dias são uma autêntica agonia e tortura, apenas esperando que tudo possa acabar de uma vez.

Não espero nenhum tratamento VIP na minha velhice, nem sei se lá chegarei. Tenho alguma esperança que as mentalidades possam evoluir à medida que vamos envelhecendo e caindo na realidade. Existem iniciativas hoje em dia que me devolvem essa esperança. Sempre aprendi a olhar para o que se passa à minha volta e de alguma forma tenho tentando intervir na sociedade civil para minorar este flagelo.

O Projecto Tempo para Dar, parece ser diferente do comum e que promete fazer algo de significativo pelos que mais precisam. As contribuições podem ser de várias formas, nem que seja dar um pouco do nosso tempo a quem tanto precisa. Certamente não imaginamos a quantidade de pessoas que precisam de ser ouvidas e acarinhadas.

Uma palavra de conforto pode fazer toda a diferença a quem já nada lhes resta. Eu sou mais um dos cidadãos anónimos que fazem parte deste projecto de voluntariado. Caro leitor e amigo, adira também a esta nobre causa e vamos ajudar a combater este face oculta da nossa sociedade. Hoje por eles, amanhã por nós!



"Perderei a minha utilidade no dia em que abafar a voz da minha consciência".

Mahatma Gandhi


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mais perigoso que o H1N1....a Solidão....

A propósito da recente noticia de um cidadão português emigrante em França, encontrado morto, mumificado, sentado numa cadeira em frente a um televisor, há dois anos, sem que ninguém o reclamasse, faz-me sentir triste e amargurado. Podia ser mais uma história de vida como tantas outras, mais um cidadão anónimo que deixa de fazer parte deste mundo, não fossem os contornos desta triste morte.......

Por muito que queiramos atribuir explicações e causas para o sucedido, é de solidão que falamos meus caros, essa flagelo criado pela sociedade em que vivemos, pior que qualquer HN1, que vive em cada casa, em cada lar, em cada instituição, em cada apartamento por mais gente e agitação que estejamos rodeados. Vivemos durante uma vida inteira, muito ocupados a olhar para o nosso umbigo sem nos preocuparmos com o que se passa à nossa volta. Só acordamos quando a realidade nos bate à porta.

É cruel o que está a acontecer ás pessoas no final da vida. Estamos a tratar mal os nossos “velhos”. E digo “velhos” porque o somos cada vez mais novos. Não nos lembramos que hoje são eles, amanhã e num futuro muito próximo seremos nós. Desde abandonadas à porta dos hospitais, das misericórdias, maltratados física e psicologicamente ou simplesmente esquecidos porque acabaram o seu prazo de validade ou então porque não há mais por onde extorquir. O sistema também parece esquecer as pessoas no final da vida quando elas mais precisam. Somos apenas um número e disso não passamos.

Este artigo é apenas um “grito” de alerta, para a terrível realidade que se vai instalando nos nossos lares. Existem milhares de pessoas sozinhas, solitárias, mesmo vivendo no seio das suas famílias. Mais nefasto ainda, é partirmos para o outro mundo sozinhos e desprezados. Mais que a morte e a perda de um ser humano é a sensação de vazio e abandono. É uma história de vida que ali termina, é uma fonte de riqueza humana não partilhada. Muitas pessoas dariam tudo para serem ouvidas, partilharem um gesto de carinho, alguém que lhes diga apenas...estou aqui....você não está só.....

Muitos de nós interrogam-se sobre o que fazer perante o desemprego e a falta de perspectivas de vida. O combate à solidão e o apoio ás pessoas desprotegidas, aos mais velhos e solitários é uma vasta área a explorar, assim como o voluntariado. Mais importante ainda é que o façam por vocação, por dedicação e sobretudo saber transmitir uma palavra de conforto a quem tanto precisa.....

“....Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...”

Excerto de um poema de Florbela Espanca

sábado, 12 de setembro de 2009

Liberdade de Expressão

O que aconteceu recentemente na TVI é mais uma prova que vivemos num pais sobre uma égide de falsa democracia, no qual vamos sendo progressivamente vilipendiados da nossa intelectualidade e liberdade de expressão. Esta situação só tem paralelo com o antigo regime, onde a informação era filtrada e manipulada para que a opinião publica fosse induzida, iludida e contida por forma a prevenir qualquer rebelião.

É triste viver num pais assim, onde se tenta ludibriar e camuflar fenómenos de corrupção em larga escala, esquemas fraudulentos, cunhas, “compadrios” e fazerem crer ao senso comum que quem nos governa são pessoas honestas e bem intencionadas, quando muitas delas têm “pés de barro” como muitas outras. É triste viver num pais onde se paga para tudo, mesmo depois de já nos terem “assaltado” o bolso em impostos. É pais do paga e não “bufa”. Fazemos barulho mas depois cai tudo no esquecimento. Os recentes aumentos nas portagens da A21 são disso um exemplo. Talvez precisássemos de sangue italiano ou grego. É triste viver num pais onde a justiça e a saúde são uma miséria, o emprego uma farsa e a igualdade de oportunidades não passa de uma utopia.

As novas tecnologias vieram devolver alguma esperança. E hoje por muito que nos tentem calar, até que nos proíbam de escrever em espaços como estes, daremos voz aqueles que não a podem ter e falaremos até que voz nos “doa”. A democracia é feita pelo povo e para o povo e este é soberano nas suas escolhas. Pena é que o povo já não seja o de antigamente.......


“Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar..."

[Gaius Julius Caesar (100-44 AC)]

sábado, 22 de agosto de 2009

Idiossincrasias Humanas

O ser humano é complexo. É diferente de qualquer máquina, computador ou chip que alguma vez venha a ser inventado. Uma diferença clara que nos separa dos outros animais e das máquinas são as emoções. Sentimentos de amor, paixão, raiva, angústia e tristeza, etc., são apanágio do ser humano e exclusivos da condição humana. Também a inveja, o ciúme, a gula e o ódio são aspectos vivenciados por muitos de nós. Fazem parte da nossa personalidade, são as chamadas idiossincrasias humanas.

Parte dos conflitos da humanidade ocorrem precisamente por termos ambições e desejos diferentes, por não compreendermos as nossas diferenças, por temos percepções diferentes, por comunicarmos de formas diferentes, quer seja intencional ou não. Também as nossas emoções nos traem por vezes, quando não sabemos equilibrar a razão e a emoção e podermos por conseguinte reagir de forma desadequada ao contexto.

A gratificação imediata desta nova geração e a obtenção de prazer a qualquer custo, põe em causa o paradigma das relações interpessoais e a forma como nos vamos relacionando. Passa a ser mais difícil para muita gente desta nova geração gerir sentimentos de frustração, quando a satisfação imediata e a obtenção de prazer deitam por terra esses sentimentos. Dá-me a ideia aliás que a depressão e a frustração serão poderosos aliados da sociedade que actualmente edificamos, materialista e consumista. As expectativas que nos criam face aquilo que obtemos e o “gap” dai obtido apontam claramente nesse sentido.

Por outro lado, a inveja, a raiva, o ódio e o rancor acabam por ser emoções que podem ser normais quando experimentados ocasionalmente e pontualmente. Serão patológicos e mesquinhos quando experimentados de forma regular ou persistente e orientados de forma perversa e malévola.

Só quando a humanidade perceber que não somos “perfeitos” e que existem valores para além do materialismo, que não existem duas pessoas iguais, que podemos de alguma forma lidar com as nossas diferenças, tirando partido disso, construindo para o efeito pontes comunicacionais importantes, é que eliminaremos em parte o chamado conflito destrutivo que corrói e mina as pessoas e destroi as relações interpessoais.

Deveremos ter consciência das nossas idiossincrasias e tirar partido delas, não deixando que os nossos “defeitos” nos toldem nem a alma nem a percepção. Devemos cultivar o altruísmo, a tolerância e o respeito pelo próximo. Desta forma será mais fácil termos o mesmo retorno que esperamos e aspectos tão importantes como a amizade e o amor ao próximo poderão por certo despontar com mais facilidade. Poderá ser utópico, mas é disto que a humanidade precisa, de amor, tolerância e dedicação ao próximo sem nada em troca esperar.

domingo, 15 de março de 2009

A Essência das Coisas....

Porque é que não mudamos aquilo que temos de mudar e que está à vista de todos? Por ganância e inveja, ou por comodismo e inércia? Quando é que deixaremos de uma vez por todas a demagogia, a exploração humana e o preconceito? Porque é que não olhamos para as pessoas e as fazemos descobrir que podem ser capazes? Porque é que é que não lhes devolvemos a esperança e as fazemos acreditar? Quando é que teremos uma sociedade justa, próspera e solidária? Quando é que deixaremos de ser cinzentos e vemos as pessoas novamente a sorrir?........I have a dream.....

Entretanto vejo uma sociedade cada vez mais fragmentada, xenófoba, apátrida e despojada dos seus valores mais elementares. As bases estão a ser destruídas, quer ao nível do ensino público, na produção da imbecilidade intelectual, quer na criação de oportunidades irrealistas ou na promoção de falsas expectativas. Estamos a cair no laxismo e na anarquia, onde reina o sentimento de impunidade, de injustiça profunda, que vai promovendo o grito de revolva e catalisando processos de segregação social. O “burburinho” social irá ganhar contornos ímpares e não me surpreenderia se eclodisse uma conflito social apenas com ecos semelhantes numa “Guerra Civil”.

Enquanto não formos ao âmago das questões, dificilmente travaremos esta hecatombe social em que o pais se está a transformar. As pessoas estão cansadas de desonestidade intelectual. Estamos a ser vilipendiados e expurgados diariamente dos nossos valores morais, sociais e materiais. Vemos uma sociedade formatada para não pensar, anestesiada e apática. Ninguém sabe como isto irá acabar, ou quando irá acabar. Mas, uma coisa é certa, nunca mais seremos os mesmos e espera-nos uma sociedade mais pobre, mais patológica, egoísta, que valoriza os bens materiais, que exige gratificação imediata, que quer viver no limite, que rejeita os afectos e a proximidade, para a qual valores como a solidariedade, o altruísmo ou a cidadania possam estar em perigo. Precisamos de um abanão e de acordar de um “coma” que parece cada vez mais profundo......

No outro lado da sociedade vejo com alguma melancolia e acrimónia, as velhas tertúlias e a cumplicidade das conversas e da intimidade, o ombro amigo e o espírito de solidariedade correrem o risco de desaparecerem e de serem substituídos pelo sms, pelo msn e pelas redes sociais. Obtemos comunidades gigantescas de amigos virtuais, porém de relacionamentos inócuos, anónimos e desprovidas de valores emocionais e de “calor humano”. É a sociedade da blogosfera e da nanotecnologia. É o evoluir natural das coisas, perfeitamente compreensível!! Mas se não evoluirmos de forma equilibrada e humana, por certo criaremos relações caóticas sem sentido, onde o ser humano viverá mais só do que nunca. Se calhar contra mim falo, pois também tenho um blog, tenho msn e recorro bastante ás novas tecnologias para comunicar e trabalhar. Mas faço questão de estar regularmente com os meus amigos, nem que seja para um café....

A responsabilidade não está apenas na forma como a humanidade está a evoluir, mas também da forma como todos nós deixamos que as coisas aconteçam. A magia de um sorriso e o conforto do toque humano, jamais será substituído por qualquer “hi5” ou “facebook”. Penso que seja possível coexistirem vários sistemas de comunicação, mas o “perigo” de não sabermos onde começa um e acaba o outro parece ser algo de preocupante.....


Aqueles que não amam a mudança são, verdadeiramente, visitantes da Terra
(Richard Bach)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Hemisférios direitos, precisam-se !!

Nunca o país precisou tanto de soluções que possam trazer uma “lufada” de ar fresco a todo este caos em que vivemos. A Sociedade precisa de motivos para voltar a acreditar, as pessoas precisam de motivos para voltarem a sorrir e as Empresas precisam de soluções para sobreviverem. Penso que é necessário valorizarmos o que de melhor há em nós, ou seja o potencial em fazer acontecer. Por vezes uma palavra, um olhar e um sorriso, podem fazer a diferença....

Sem desvalorizar o lado racional e analítico, precisamos urgentemente de “Hemisférios Direitos” que verbalizem, que criem e que inovem. Precisamos da visão analógica, intuitiva artística e emocional que nos ajude a gerir a nossa racionalidade. Precisamos de novas abordagens nos relacionamentos interpessoais, necessitamos de reaprender a ser, a estar e a fazer nesta sociedade mutante e cibernética, em que o novo paradigma relacional põe em causa a proximidade, reprime os afectos e nos torna apáticos. É necessário uma sociedade mais gregária e solidária convergente com os novos valores onde possamos renovar o espírito e a mente.

Onde para uns existe crise, para outros existem oportunidades. O talento revela-se nestas ocasiões. Onde o lado racional persiste em não haver soluções, contrapõe o lado criativo em ver o outro lado da moeda. No fundo tudo isto se assemelha a ver um dia de chuva e desfrutar de toda a sua beleza ou pensar em todo o caos que a chuva pode trazer.

Mais do que nunca, urge a necessidade de reter talentos, de potenciar os nossos hemisférios direitos, de ver para além do óbvio, de criar saídas estratégicas, de valorizar o ser humano em toda a sua plenitude e de desfrutar do melhor que nele existe.


"Em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento”

Albert Einstein