segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mais perigoso que o H1N1....a Solidão....

A propósito da recente noticia de um cidadão português emigrante em França, encontrado morto, mumificado, sentado numa cadeira em frente a um televisor, há dois anos, sem que ninguém o reclamasse, faz-me sentir triste e amargurado. Podia ser mais uma história de vida como tantas outras, mais um cidadão anónimo que deixa de fazer parte deste mundo, não fossem os contornos desta triste morte.......

Por muito que queiramos atribuir explicações e causas para o sucedido, é de solidão que falamos meus caros, essa flagelo criado pela sociedade em que vivemos, pior que qualquer HN1, que vive em cada casa, em cada lar, em cada instituição, em cada apartamento por mais gente e agitação que estejamos rodeados. Vivemos durante uma vida inteira, muito ocupados a olhar para o nosso umbigo sem nos preocuparmos com o que se passa à nossa volta. Só acordamos quando a realidade nos bate à porta.

É cruel o que está a acontecer ás pessoas no final da vida. Estamos a tratar mal os nossos “velhos”. E digo “velhos” porque o somos cada vez mais novos. Não nos lembramos que hoje são eles, amanhã e num futuro muito próximo seremos nós. Desde abandonadas à porta dos hospitais, das misericórdias, maltratados física e psicologicamente ou simplesmente esquecidos porque acabaram o seu prazo de validade ou então porque não há mais por onde extorquir. O sistema também parece esquecer as pessoas no final da vida quando elas mais precisam. Somos apenas um número e disso não passamos.

Este artigo é apenas um “grito” de alerta, para a terrível realidade que se vai instalando nos nossos lares. Existem milhares de pessoas sozinhas, solitárias, mesmo vivendo no seio das suas famílias. Mais nefasto ainda, é partirmos para o outro mundo sozinhos e desprezados. Mais que a morte e a perda de um ser humano é a sensação de vazio e abandono. É uma história de vida que ali termina, é uma fonte de riqueza humana não partilhada. Muitas pessoas dariam tudo para serem ouvidas, partilharem um gesto de carinho, alguém que lhes diga apenas...estou aqui....você não está só.....

Muitos de nós interrogam-se sobre o que fazer perante o desemprego e a falta de perspectivas de vida. O combate à solidão e o apoio ás pessoas desprotegidas, aos mais velhos e solitários é uma vasta área a explorar, assim como o voluntariado. Mais importante ainda é que o façam por vocação, por dedicação e sobretudo saber transmitir uma palavra de conforto a quem tanto precisa.....

“....Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...”

Excerto de um poema de Florbela Espanca

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